pesquisa: ana herrera; entrevista e produção de texto e imagens: mirian barranco herrera

A primeira vista e por muito tempo depois, as obras de Maria Cininha despertam alegria. Em um segundo olhar, ficamos admirados com a perfeita junção de texto e imagem... olhando mais detidamente, não há como não se apaixonar ao perceber a colagem de tecidos, papéis e de vários elementos naturais que compõem belos vestidos e adornos...  mas, sem dúvida, é a sensibilidade da artista que encanta.

Com bacharelado e licenciatura em artes pela Faculdade Belas Artes de São Paulo e com mestrado em gerontologia pela PUC-SP, Maria Cininha concedeu uma entrevista exclusiva ao O Avesso da Moda, onde fala de suas releituras de obras de grandes pintores, sobre a coleção de Marias e até sobre Amy Winehouse... vamos conferir?

O anjo costureiro

Avesso: Por que escolheu a técnica da colagem?

Maria Cininha: O papel sempre foi o meu suporte preferido. A tela eu descartei logo no inicio dos meus estudos de arte. Mas a colagem entrou na minha vida quando fiz a dissertação de mestrado. 
Nela pesquisei criatividade e envelhecimento, mas precisamente se a criatividade diminuía com passar do tempo, ou seja, se era mais uma perda do envelhecimento. Para esta pesquisa trabalhei com obras de velhos pintores que morreram com mais de 80 anos, um deles Henri Matisse. 

Com licença de Henri Matisse - O sonho de 1940

Com licença de Gustav Klimt - O beijo

Com licença de Pablo Picasso - O sonho

Matisse teve um problema de saúde que o deixou nos seus últimos 14 anos de vida em uma cadeira de rodas ou uma cama, que o impedia de pintar. Ele em vez de desistir e se conformar com sua incapacidade se volta para os seus famosos recorte e colagem. Mesmo sem saber da sua história de superação, o colorido, as formas desenhadas pela tesoura de Matisse são muito fáceis de amar. 

Com licença de Henri Matisse - Blusa Romena

Avesso: Como surgiu a ideia de criar os personagens e traduzi-los em colagens? 
MC: No começo fiz releituras dos recortes de Matisse, entretanto buscando minha própria voz na técnica. Procurei uma arte alegre, lúdica e colorida. 
Passei por várias fases: bichos, passarinhos, retratos, as Marias e outras que virão, mas sempre com o foco no lúdico. 

Até passarinho passa - Bartolomeu de Campos Queirós

Eu crio a minha arte, porque me diverte, me faz sorrir, e, por conseguinte, faz o mesmo com as outras pessoas. Dos cinco anos no Flickr e nos dois anos no blog, oitenta por cento dos comentários referem que meu trabalho provoca sorrisos e encanta. É um feedback fantástico, não poderia esperar nada melhor. 

Flores nos cabelos

Avesso: De onde vem sua inspiração? 
MC: De um passarinho na árvore, de uma semente jogada no chão, de retalhos, de restos de conversas, de noticias de jornais, de carrinho de pipoca, de portão de escola, de histórias de amor e de saudades. Enfim, de quase tudo, o importante é a maneira de olhar. Chamo este olhar de curiosidade, de espanto e de possibilidade de “olho de menino”. Movo o meu olhar para além da depreciação das coisas pelo cotidiano. Ah! E muita Imaginação. 

Chuva

Ora Bolas

Avesso: Vi um trabalho da Amy Winehouse, como surgiu a ideia para esta proposta? 
MC: Uma pena uma jovem artista de tanto talento e sucesso, morrer daquela maneira, e também lamento o jeito que foi tratada pela mídia em sua breve vida. 

Amy Winehouse

As séries Marias eu criei para falar das mulheres e para mulheres, mas não com foco feminista ou ideológico, procurei para as Marias uma forma literalmente inusitada, não são ilustrações de revista feminina, elas pretendem despertar as meninas que moram dentro de cada mulher. 

Maria Cupcake

Maria Rendeira

Maria Lareira

São divertidas, irreverentes, coloridas, poéticas, mas, às vezes, no mundo das Marias acontecem dias cinzentos, e enfrentam momentos sérios e tristes, como todos nós. A Amy era uma Maria triste, que não conseguiu encontrar a leveza na vida e em busca dela partiu para outro lugar. Acho que a sua fragilidade merecia mais respeito, por isso fiz a Maria Amy Winehouse. 

Maria 4 Olhos

Maria Abóbora

Maria do céu, da lua, das estrelas

Avesso: Quando você começa fazer seus desenhos, qual a “rotina” que gosta de aplicar: ouvir música, assistir TV...? 
MC: Cada dia para mim é diferente, não tenho uma rotina rígida. Mas há algumas constantes. Cafezinho, leitura de páginas do livro que estiver lendo no momento, passeios com o cachorro. Um trabalho de colagem fica por dias na minha cabeça, faço anotações, escolho cores e texturas, às vezes faço pesquisa relativa ao tema. No momento estou fazendo um Livro Acordeom sobre as flores da artista-bióloga Margaret Mee. Isso já me levou o mês de janeiro e acredito que vai estar pronto só em março. Este é o meu objetivo este ano, trabalhar a colagem com grandes temas. 

Mudanças

Cartas de amor

Vale ainda lembrar que na colagem se lida muito com a casualidade e eu prezo muito isso. É uma técnica espontânea, há muitas coincidências e acasos e acidentes, nas outras técnicas também há, mas na colagem é muito frequente. Um recorte que se move sobre a folha, ou o modo como cai, os retalhos que seriam descartados, pode mudar todo um trabalho. 

Quando o coração foge do peito

Ainda sobre corações fugitivos

Avesso: Em que você vê “beleza”? 
MC: Preservo a minha capacidade de admiração, mas não consigo explicar a experiência interior da beleza. A beleza está no olho de quem olha. É subjetivo. Eu pratico e exercito muito o meu “olho de menina” e o importante é não ter acanhamento disso. Portanto, para mim, a beleza pode estar em qualquer lugar. 

Com Asas

Avesso: Atualmente seus trabalhos estão em exposição ou há alguma prevista? 
MC: Não tenho nenhuma exposição no momento. Fui convidada para uma no meio do ano, mas ainda não tenho detalhes.

Bom fim de sema

Quem quiser que conte outra

Para saber mais:
Não deixe de visitar o site de Maria Cininha e conferir os ótimos textos que acompanham as colagens: http://www.mariacininha.com/. Para encomendas de trabalhos, entre em contato diretamente com a artista.

[©Conteúdo protegido por direitos autorais. Texto produzido pelo O Avesso da Moda. Imagens gentilmente cedidas por Maria Cininha exclusivamente para publicação nesta reportagem. Todos os direitos reservados.]